"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Cinco apontamentos sobre a colonização do Vale do Itajaí que a história oficial não conta!

A imagem que temos da colonização do Vale do Itajaí é, muitas vezes, a de um épico. Retrata pioneiros heroicos que, com coragem e trabalho duro, dominaram uma natureza selvagem para fundar cidades prósperas. No entanto, relatos da época, quando lidos com um olhar crítico, revelam uma realidade muito mais crua, complexa e, por vezes, contraditória. O texto Flagrantes da História de Rio do Sul, escrito por Victor Lucas em 1959, é uma janela rara para esse passado.

Mais do que uma simples crônica, o relato de Lucas nos convida a explorar como uma cidade nasce da violenta interação entre a ambição humana e um ambiente ativo e resistente. Baseando-nos em seu testemunho e em análises modernas sobre ele, vamos revelar cinco fatos que desconstroem a narrativa tradicional e expõem o complexo "metabolismo socioambiental" da colonização: o processo pelo qual florestas foram convertidas em fazendas, rios em estradas e perigos, e territórios indígenas em propriedade colonial.

Apontamento 1 
A vida dos primeiros colonos no Alto Vale do Itajaí era um paradoxo. Eles viviam sob a ameaça constante da malária, de acidentes nas derrubadas da mata, de ataques de animais peçonhentos e de um violento conflito territorial. Contudo, em meio a tantos perigos, uma coisa era praticamente inexistente: a fome. Victor Lucas descreve uma natureza de riqueza e fauna impressionantes, um ecossistema que ainda não havia sido esgotado pela ocupação intensiva. A caça (macuco, jacutinga) e a pesca (traíras de 3 a 7 quilos) eram tão abundantes que garantiam a subsistência de forma quase imediata.

Um pioneiro entrevistado por Lucas ilustra essa fartura de maneira vívida, contrastando a facilidade de obter alimento com as outras dificuldades da vida no sertão: 

Não, disse êste honrado e velho pioneiro, pois, os sertões eram virgens em todos os sentidos e as suas extensões intermináveis, e a carne que formava a base de nossa alimentação, era abundante e boa. Era só receber o aviso da cozinha que a carne acabara, quando empunhava meu pau de fogo, aliás uma belíssima espingarda alemã, de 2 canos, bala e chumbo e, o mais tardar uma hora após ter recebido o recado, eu jogava sôbre a mesa, tôsca mas farta, ou um belo exemplar de macuco ou de jacutinga, ou ambos, conforme a sorte.

Sob a lente da História Ambiental, essa abundância alimentou o "mito da natureza inesgotável". Mais do que uma simples percepção, este mito funcionou como uma poderosa ferramenta ideológica: justificava a mentalidade extrativista dos colonos e obscurecia as consequências ecológicas de longo prazo de suas ações, que levariam muitas espécies à rarefação nas décadas seguintes.

Apontamento 2
Diferentemente de Blumenau e Brusque, cujas fundações foram projetos coloniais planejados e financiados pelo governo, Rio do Sul nasceu de forma orgânica, quase acidental. Victor Lucas é enfático ao afirmar que a cidade não teve um "ato solene", com discursos e registros oficiais. A ocupação começou com "movimentos isolados, tentativas heroicas e temerárias" de sertanistas e descendentes de imigrantes que avançavam pelo território por conta própria.

Essa origem não planejada é perfeitamente ilustrada pela controvérsia sobre a "primeira casa". O relato aponta que a moradia de Basílio Corrêa de Negredo, erguida por volta de 1895, era uma "simples palhoça", uma estrutura provisória. Já a de José Vicente, construída em 1897, é considerada a "primeira casa - verdadeira", com os requisitos mínimos de uma moradia. Essa distinção revela que a fundação não foi um evento único, mas um processo gradual, feito de tentativas, avanços e recuos.

Essa narrativa de uma origem "acidental" também reforça o "sertão" como uma construção cultural: uma ideia que apresenta o território como vazio, desorganizado e à espera de ordem. Ao enfatizar o caráter não planejado da ocupação, essa visão, mesmo baseada em fatos, serviu para apagar a presença indígena anterior e justificar a apropriação como uma expansão natural, quase biológica, em vez de uma invasão planejada. A cidade, portanto, não foi "fundada" em um único ato; ela emergiu de um processo caótico e adaptativo de interação entre seus habitantes e o ambiente.

Apontamento 3
A narrativa heroica do pioneiro frequentemente omite um fato crucial: o abandono completo por parte do Estado. Enquanto os colonos de Blumenau e Brusque receberam apoio governamental com financiamento, terras, ferramentas, escolas e até proteção armada, os que se aventuraram no Alto Vale do Itajaí foram deixados à própria sorte. Não havia assistência médica para combater a malária, auxílio durante as enchentes devastadoras ou qualquer tipo de proteção.

O ponto mais contraintuitivo, no entanto, é que a ação do governo em outras regiões não apenas não ajudou, como agravou a situação em Rio do Sul. Ao destacar pelotões armados para "proteger" os colonos do litoral, o Estado empurrou os povos indígenas para o interior. Como explica Lucas, isso intensificou a tensão no território que se tornaria Rio do Sul:

...êstes ainda sofriam o agravamento da situação, provocado pelo deslocamento dos índios ou bugres, empurrados para o planalto pelos citados pelotões armados, e que aqui se moviam livremente, vingando ataques recebidos na zona do litoral...

Dessa forma, o Estado deixou de ser uma figura meramente ausente para se tornar um agente indireto do conflito, transformando a região em uma zona de refúgio forçado e, consequentemente, em um campo de batalha ainda mais intenso.

Apontamento 4
A ideia de uma "floresta virgem" ou de uma "selva vazia" que aguardava a chegada dos colonizadores é um dos mitos mais persistentes e problemáticos da história regional. A análise do texto de Victor Lucas mostra que esse território, longe de ser vazio, era um espaço de vida e domínio ancestral dos povos indígenas. A "natureza intocada" era, na verdade, um ambiente profundamente conhecido, manejado e habitado.

O próprio Lucas, mesmo escrevendo sob a ótica do colonizador, reconhece que o conflito não era um ataque unilateral a invasores indefesos, mas uma reação legítima à expropriação territorial. Ele descreve a resistência indígena como uma defesa de seu espaço de vida:

...defendendo, heroicamente, aquilo que, durante milênios, fôra do seu domínio absoluto e indisputado.

O que ocorreu no Alto Vale do Itajaí foi um clássico "conflito ambiental", o choque violento entre dois metabolismos socioambientais irreconciliáveis. De um lado, o sistema indígena, baseado na territorialidade, na mobilidade e na coexistência dentro do ecossistema. Do outro, o sistema colonial, predicado na conversão da terra em propriedade privada e da natureza em mercadoria. A colonização não apenas ocupou um espaço, mas impôs à força um novo modelo de relação com o ambiente, destruindo o sistema ecológico e social que existia anteriormente.

Apontamento 5
Para o colono de Rio do Sul, a natureza tinha uma dupla face. Por um lado, era a aliada generosa que garantia a sobrevivência. Como vimos no primeiro ponto, sua abundância de fauna e a fertilidade dos solos ribeirinhos impediram a fome e viabilizaram a ocupação inicial. A natureza era a despensa e o alicerce da vida.

Por outro lado, era uma inimiga implacável e uma fonte constante de perigo. O mesmo ambiente que alimentava também matava. Lucas detalha as múltiplas ameaças: os ataques de ofídios, com suas "mordidas, geralmente de conseqüências terríveis e, às vêzes, fatais"; as doenças, como a malária, "que tantas resistências quebrara"; e os fenômenos climáticos. O poder dos rios era especialmente ambíguo: as mesmas vias que serviam de transporte e cujas margens eram estratégicas para as moradias se transformavam em forças devastadoras durante as cheias, que isolavam famílias por semanas, deixando-as "encurraladas, sem meios de buscar socorro".

A história da colonização é, portanto, a história de uma negociação violenta com uma natureza de dupla face: a aliada generosa que garantia a vida e a inimiga implacável que impunha limites brutais à ambição humana.

Concluindo, a história da fundação de Rio do Sul, vista através de relatos como o de Victor Lucas, é muito mais do que um conto de heroísmo pioneiro. Ela é um estudo de caso sobre o metabolismo socioambiental da colonização: um processo violento de abandono, conflito e adaptação, no qual a natureza era, simultaneamente, provedora e aniquiladora. Desvendar essas camadas não diminui a resiliência dos que aqui chegaram, mas nos oferece uma visão mais honesta e completa do nosso passado, reconhecendo os custos ecológicos e humanos dessa transformação. Ao olharmos para nossas próprias cidades, que outras histórias – sobre a natureza, os conflitos e os povos silenciados – ainda estão escondidas sob o asfalto e as narrativas oficiais? A história regional é um prato cheio para estudos de História e História Ambiental. 

A propósito, se olharmos para a própria história do curso de História da Universidade Regional de Blumenau, ela  surge com esse propósito, inclusive afirma ter sido criado para compreender a geohistória do Vale do Itajaí, ou seja, a sua História Ambiental.... mas essa é uma outra discussão. Se gostou do texto, comenta aí. Se quer ter acesso ao documento que analisamos clique aqui.

Referência 
LUCAS, Victor. Flagrantes da história de Rio do Sul. Blumenau em Cadernos, Blumenau, n. 11, tomo II, p. 201–205, nov. 1959.

Este texto foi revisado, corrigido e sofreu alterações  realizadas com o IA.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Pequeno retrato agrícola do Brasil oitocentista: analisando as culturas de Brusque e Nova Trento

O documento que analisamos é um fragmento com o título NOTÍCIAS de BRUSQUE E NOVA TRENTO, escrita por D. Arcângelo Ganarini em 1880 e traduzida do italiano por Lucas Alexandre Boiteux. Publicado na Revista Blumenau em Cadernos, n.09 em setembro de 1959, o texto é muito mais do que um mero catálogo agrícola, mas um documento de profunda tradução ecológica e econômica. Através do olhar de Ganarini, observamos a mentalité de um observador oitocentista, testemunhando a constante tensão entre a memória agrícola europeia e a nova e desafiadora ecologia do sul do Brasil. Esta postagem analisa o relato como uma fonte, que olhamos com a história ambiental, explorando como as aspirações europeias foram mapeadas, e frequentemente redefinidas, por uma paisagem brasileira repleta de promessas e perigos. Ganarini dedica parte significativa de seu relato às culturas que representavam oportunidades de lucro e desenvolvimento econômico para os colonos. Sua análise não é apenas descritiva, mas também prática, avaliando a viabilidade, os riscos e o potencial de retorno de cada planta. É isso que achamos interessante, pois essas informações dialogam com nossas ações de pesquisas de História Ambiental da agropecuária do Vale do Itajaí, projeto desenvolvido dentro da linha de pesquisa História Ambiental e Desenvolvimento Regional (2024-2026).

O autor descreve o café como uma cultura que "vinga também nestas colônias", exceto quando prejudicado pela geada. Ele apresenta dados precisos sobre o apelo econômico da planta: uma densidade de 900 pés por hectare poderia render de 600 a 2.000 quilos, vendidos a 40 ou 50 vinténs o quilo. Contudo, a análise de Ganarini revela que a escolha de cultivar café era mais do que um cálculo econômico; era uma decisão de vida ou morte. Ele relata a trágica experiência de outros imigrantes seduzidos por lucros vistosos: "muitos dos nossos compatriotas reunidos no Rio, combinaram procurar as colônias da província do Espírito Santo, aonde muitos sob aquêle clima ardente e sítios malsãos, adoeceram e não poucos lá deixaram a vida...". Neste contexto, a geada de Santa Catarina, um risco manejável com conselhos práticos como "plantá-la debaixo de outras árvores e cobri-la de folhas sêcas", parecia um mal menor em comparação com as doenças tropicais mortais. Mesmo assim, ele critica os colonos locais que não eram "mais solertes" para cultivar o grão para consumo próprio, pagando entre 70 e 90 vinténs por um produto que poderiam ter em seus quintais.

O cultivo de algodão na província limitava-se às "necessidades da família". Ganarini detalha o processo de manufatura caseira: os capulhos eram colhidos, as sementes retiradas com um torno, o fio era produzido no fuso, tingido com "ervas, raízes ou cascas" e, por fim, tecido. A sua frustração com os colonos por não adotarem essa prática revela uma profunda ansiedade cultural. O apelo para que as mulheres italianas imitassem as brasileiras — que "não deveriam ir dormir antes das galinhas e levantar-se antes do sol" — era menos sobre economia simples e mais sobre prevenir um percebido declínio civilizacional, ou seja, um discurso etnocêntrico. A urgência era material e simbólica, pois "as roupas trazidas da Europa se acham esfarrapadas, e se não forem substituídas, será preciso andar muito breve em trajes de Adão."

O tabaco é descrito como uma planta que "consola sobremodo os nossos colonos". Ganarini ressalta o contraste com a Europa, onde cultivar a planta era um ato fiscalizado. No Brasil, havia a liberdade de "cultivá-la sem licença das finanças, poder colhê-la e prepará-la à luz do sol, sem temer os espiões e cair no contrabando". Ele descreve os métodos locais, como o cigarro enrolado em "folhas mais finas das espigas de milho" e o "fumo em corda", e nota a introdução de variedades europeias ("húngaro, brasil, valstanha") pelos colonos. Mais importante, porém, é o detalhe que Ganarini astutamente observa: o tabaco, junto ao café, foi "julgada digna de figurar como ornamento no brazão do pais". Essa elevação a símbolo nacional, comparável ao carvalho e à oliveira na Áustria, transforma a planta de um simples conforto para colonos em um pilar da ambição econômica e do projeto de construção estatal do Império Brasileiro.

O cultivo da videira é apresentado como um caso exemplar de transferência de conhecimento e adaptação. A esperança era grande, com uvas "marzemina" locais rivalizando com as do Adige. A narrativa, porém, vai além da luta contra as formigas. Ganarini revela uma história de experimentação: inicialmente, os brasileiros "deixavam crescer a videira sem a menor cultura" e acreditavam ser impossível fabricar vinho devido à maturação desigual. Foram os colonos italianos que, aplicando técnicas europeias, "podaram as videiras e assim foi corrigida em parte a maturação desigual", provando que a vinicultura era viável. Ameaçados pelas formigas que deixavam a planta "nua e êscas", os colonos mais "pacientes e ativos" desenvolveram uma solução local engenhosa: "cercar o terreno destinado às vinhas com um valo cheio d'água". O sucesso, com colonos já esperando ganhar "mais de 150 florins", era incentivado por notícias de safras prósperas em outras províncias como Rio Grande do Sul e São Paulo, demonstrando a existência de redes de conhecimento agrícola em desenvolvimento.

O documento também é rico em descrições de plantas que formavam a base da dieta dos colonos, revelando um intenso processo de adaptação aos alimentos nativos e a introdução de culturas europeias. O Aipim, descrito como uma das mais importantes raízes alimentares, de farinha "muito mais gostosa do que a da mandioca". Seu uso comum era cozido, com sabor comparado à "castanha". Por ser "muito lactifero", era dado aos animais no inverno. Ganarini destaca sua boa aceitação entre os "trentinos". 

A batata doce de sabor "pronunciado adocicado" e o tamanho, com tubérculos de até três quilos, era usada principalmente na "alimentação de porcos e galináceos", o autor sugere que poderia servir às pessoas se o sabor fosse corrigido com "ingredientes picantes e vinagre e limão". Também são tratados dos Mangaritos e Taiá (Caladium). O texto os diferencia pelo sabor, sendo o mangarito descrito como picante, enquanto o taiá se parece com o aipim. Sua grande vantagem era poderem ser conservados "durante muito tempo depois de arrancadas da terra", substituindo as batatas europeias.

O Cará (Dioscorea), é mencionado duas espécies, sendo uma, com um grande tubérculo usado para fazer pão, e outra, uma trepadeira que produz frutos nos nódulos. A planta, contudo, era vulnerável às formigas, que "as despojam até às vêzes, deixá -las sêcas".

Sobre a Araruta o autor descreve o detalhado processo de extração da farinha (ralar, moer, lavar, decantar) para fazer uma "espécie de gelatina". Embora exportada para o Desterro e Rio de Janeiro, era "pouco ou quasi desconhecida" entre os colonos italianos.

A fonte trata das Batatas "inglesas". As batatas europeias produziam duas vezes ao ano, mas não tão bem quanto nos "países alpinos". Para manter a produtividade, as sementes precisavam ser renovadas da Europa a cada três ou quatro anos.

Ganarini via a sericicultura (criação de bichos-da-seda) como um potencial "bom negócio". Contudo, ele aponta uma significativa barreira cultural: "os brasileiros e alemães têm uma espécie de horror" pelo inseto, não suportando sequer tocá-lo. Ele finaliza com uma crítica às tentativas governamentais de introduzir a cultura, que, em sua visão, resultaram em muito dinheiro gasto com "resultado problemático", pois o país não dispunha "de conhecimentos nem os meios para superá-las".

O relato de D. Arcângelo Ganarini é muito mais que uma lista de plantas, podemos dizer que é um documento que sintetiza a complexa experiência dos imigrantes no sul do Brasil. Ao aprofundar a análise, extraímos conclusões fundamentais sobre este processo histórico. A fonte apresenta uma intensa negociação entre técnicas agrícolas europeias importadas e as realidades ecológicas locais. A busca por adaptação e viabilidade econômica era um processo contínuo de tentativa, erro e inovação. A descrição de cada planta é quase sempre acompanhada de uma análise de seu valor econômico, uso prático ou potencial de lucro, refletindo a mentalidade, o ponto de vista ideológico do narrador, que se apresenta pragmático à sobrevivência e prosperidade na fronteira agrícola. O documento revela as distintas atitudes dos grupos de colonos. Vemos isso na ação italiana de poda nas videiras, em contraste com a prática local, por exemplo. Os desafios iam além de "geadas" e "formigas". O relato situa os problemas locais em um contexto ambiental mais amplo, contrastando os riscos manejáveis de Santa Catarina com o "clima ardente e sítios malsãos" de outras províncias, que representavam uma ameaça mortal.

Relatos como o de Ganarini são fontes primárias indispensáveis. Eles nos permitem compreender a interação dinâmica e, por vezes, conflituosa entre imigrantes, agricultura e o ambiente brasileiro, pintando um retrato vívido da formação do espaço rural no Brasil oitocentista. E se você quer conhecer o material clique aqui para acessar a nossa fonte de análise, e faça você mesmo as suas colocações. Comenta aí!

Referência:

GANARINI, D. Arcângelo. Brusque e Nova Trento: isto é, das colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro na Província de Santa Catarina, Império do Brasil. Tradução de Lucas Alexandre Boiteux. Revista Blumenau em Cadernos, Blumenau, n. 9, tomo II, 1959. p.177-180.

Esta postagem passou por revisão, e melhorias de texto a partir do uso de IA.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma reflexão sobre a escolha da árvore de natal! Feliz Natal!

Olá, leitores, e um feliz final de ano de 2025. 

Com as festas de Natal e Ano Novo se aproximando, nossos lares começam a se encher de luzes, decorações e daquele espírito único que marca esta época. Em meio a tudo isso, um símbolo se destaca: a árvore de Natal. Enquanto montamos nossas árvores, seja um pinheiro fresco com seu aroma de floresta ou uma artificial guardada com carinho, já paramos para pensar em sua história ambiental? A escolha que fazemos, aparentemente simples, está no centro de um debate de mais de um século sobre natureza, tecnologia, consumo e nossa relação com o planeta.

Esta reflexão é inspirada por discussões globais sobre o tema, como as encontradas em blogs acadêmicos como o "Völkerrechtsblog", que questionam as tradições natalinas sob uma ótica ambiental. No entanto, para desvendar esta história, vamos nos apoiar fortemente na pesquisa exaustiva do historiador Aaron Thomas. Seu trabalho de doutorado de 2020, "Controlling Christmas: an environmental history of natural and artificial trees", é uma verdadeira expedição aos arquivos da cultura natalina, revelando como a simples árvore se tornou um campo de batalha para as ideias americanas sobre natureza, lar e progresso. Ela nos ajuda a entender o dilema que enfrentamos hoje.

A árvore que chamamos de "real" ou "natural" tem uma trajetória que está longe de ser simples. Aqui vemos um padrão clássico na história ambiental: uma solução para um problema (desmatamento) gera um novo conjunto de complexidades ecológicas (monocultura, uso de pesticidas). Sua evolução revela como nossas ideias sobre a natureza foram moldadas e, por sua vez, como moldamos a própria natureza para atender às nossas expectativas.

No final do século XIX e início do século XX, as árvores de Natal eram cortadas diretamente de florestas selvagens. Essa prática rapidamente gerou um alarme sobre o desmatamento. A preocupação se tornou tão proeminente que deu origem a uma das lendas mais duradouras da Casa Branca: a de que o presidente Theodore Roosevelt, um fervoroso conservacionista, teria banido as árvores de Natal de sua residência para proteger as florestas. Embora a história seja provavelmente apócrifa, ela captura perfeitamente o espírito da época. O movimento conservacionista da Era Progressista estava em pleno andamento, dividido entre preservacionistas como John Muir, que defendiam a proteção da natureza intocada por seu valor intrínseco, e conservacionistas de "uso racional", como Gifford Pinchot, que acreditavam no manejo científico dos recursos naturais para o bem humano. A árvore de Natal estava bem no centro desse debate: era um desperdício sentimental ou um uso legítimo e alegre de um recurso florestal?

A solução para a extração predatória das florestas parecia óbvia: cultivar árvores de Natal em fazendas. Essa ideia ganhou força, e até mesmo o presidente Franklin D. Roosevelt se tornou um produtor de árvores em sua propriedade em Hyde Park. No entanto, o que começou como uma solução conservacionista evoluiu para um processo agrícola altamente industrializado, impulsionado em parte pela crise agrícola dos anos 1980, que levou muitos agricultores tradicionais a cultivar coníferas como um último esforço para permanecer em suas terras, resultando em um mercado saturado.

Aqui reside a ironia central da nossa história: na busca pela "autenticidade" para competir com sua rival de plástico, a indústria da árvore natural tornou seu produto cada vez mais artificial. A dissertação de Thomas revela como a "árvore real" de hoje é, em muitos aspectos, um produto fabricado, moldado por intensa intervenção humana e química.

Para alcançar a forma cônica e densa que os consumidores consideram "perfeita", as árvores são podadas anualmente. Esse processo, que os próprios produtores chamavam de "modelagem artificial", garante que as árvores não cresçam de forma irregular, como fariam na natureza. O ideal de "perfeição" não era apenas hortícola, mas um ideal cultural e de gênero. Festivais realizavam concursos de "Rainha Evergreen" e anúncios da época equiparavam explicitamente a estética de uma mulher "bem-vestida" à de uma árvore "bem-vestida", mostrando que a árvore perfeita era uma construção social.

As fazendas de árvores são, em sua maioria, monoculturas, o que as torna vulneráveis a pragas e ervas daninhas. Consequentemente, a indústria passou a depender fortemente de regimes químicos para proteger a colheita, com preocupações crescentes sobre a contaminação do solo e da água.

Para garantir uma cor verde vibrante e mascarar agulhas amareladas, muitos produtores pulverizam suas árvores com colorantes como o "Greenzit". Um anúncio de 1965 prometia que o produto transformava "árvores descoloridas, mas de resto perfeitas" em árvores "premium". O resultado é que a árvore "natural" que compramos hoje é um produto tão gerenciado e, em certo sentido, "artificial" quanto sua contraparte de plástico. Ela não vem de uma floresta idílica, mas de uma linha de produção agrícola que busca a perfeição estética em detrimento do processo natural.

A história da árvore artificial é igualmente complexa, refletindo as mudanças nas atitudes culturais em relação à conveniência, modernidade e autenticidade. As primeiras árvores artificiais surgiram com um apelo explicitamente conservacionista. Modelos feitos na Alemanha a partir de penas de ganso tingidas de verde foram comercializados como uma forma de "salvar as florestas". Além do apelo ecológico, a segurança era um grande argumento de venda. Numa época em que velas de cera reais eram usadas para iluminar as árvores, o risco de incêndio era uma ameaça constante. A conveniência e a reutilização também eram fatores atraentes para as famílias urbanas.

A árvore artificial atingiu seu auge cultural com o advento da árvore de alumínio nas décadas de 1950 e 1960. Brilhante, metálica e muitas vezes iluminada por uma roda de cores giratória, ela não era apenas um produto, mas o epítome da modernidade da Era Espacial, um símbolo de fé no progresso tecnológico e no otimismo americano. No entanto, seu reinado foi abruptamente interrompido por um ponto de virada cultural improvável. Em 1965, o especial de TV "A Charlie Brown Christmas" foi ao ar. O programa era uma crítica direta à crescente comercialização do feriado, simbolizada no desenho pelas coloridas e brilhantes árvores de alumínio. Em sua busca pelo "verdadeiro significado do Natal", Charlie Brown escolhe uma pequena, esparsa e imperfeita árvore de Natal natural. Ao ser cuidada e amada por seus amigos, a pequena árvore se transforma em um belo símbolo. 

O impacto foi imediato e profundo. A popularidade da árvore de alumínio despencou. O especial de Charlie Brown, como afirma a pesquisa de Thomas, efetivamente "matou" a árvore de alumínio, representando uma profunda reação cultural contra o comercialismo e a fé cega na tecnologia. Ele redefiniu o debate em torno da autenticidade versus a artificialidade e solidificou a imagem da árvore natural (mesmo que imperfeita) como a escolha "correta".

Hoje, o debate se concentra menos na autenticidade e mais no impacto ambiental. A escolha é complexa, influenciada não apenas pela ecologia, mas também por realidades socioeconômicas e culturais. O marketing da árvore "real", por exemplo, frequentemente se dirigia às mulheres como as principais tomadoras de decisão domésticas, apelando ao seu papel como guardiãs da tradição familiar e do ambiente do lar — uma preocupação como a "queda de agulhas para a dona de casa comum" era um ponto chave para a indústria. Ao mesmo tempo, a realidade econômica muitas vezes ditava a escolha, com famílias de baixa renda optando pela árvore artificial como um investimento de longo prazo para economizar dinheiro.

Mas nesta história existem pontos a favor e pontos contras. Por um lado ass fazendas de árvores podem ajudar a prevenir a erosão do solo e fornecer oxigênio. Como cultura, as árvores capturam carbono durante seu crescimento. No final de sua vida útil, a árvore é 100% biodegradável e, se reciclada corretamente, pode ser transformada em adubo ou mulch, devolvendo nutrientes ao solo. mas, por outro lado o modelo de monocultura intensiva é criticado por sua falta de biodiversidade. O uso de pesticidas e herbicidas pode contaminar o solo e os lençóis freáticos. Além disso, há a pegada de carbono associada ao transporte das árvores das fazendas rurais para os centros urbanos, muitas vezes por longas distâncias.

Sobre o uso da árvore artificial a literatura apontou pró e contras. Prós: O principal benefício é a reutilização. Uma árvore artificial pode ser usada por muitos anos, eliminando a necessidade de uma nova compra anual. Contras: A maioria é feita de PVC, um plástico derivado do petróleo, cujo processo de produção consome muita energia e libera poluentes. Muitas contêm chumbo como estabilizador, o que pode representar um risco à saúde. No final de sua vida útil (que pode ser mais curta do que se espera), elas acabam em aterros sanitários, onde levarão séculos para se decompor, se é que algum dia o farão.

Então o nosso natal deve ser reflexivo, a sustentabilidade dependerá de nossas escolhas, de nossa pegada ambiental. Como a história nos mostra, a escolha da árvore de Natal é muito mais complexa do que uma simples preferência entre "real" e "falsa". Este objeto único serve como um microcosmo para as lutas maiores e contínuas da nossa sociedade. O embate entre natureza e artificial, tradição e conveniência, agricultura local e manufatura global. Não há uma resposta única e fácil. Estamos experimentando e errando, aprendendo mas eu acho que fazendo pouco para consertar!

Estudos de ciclo de vida, como o da organização "Dovetail Partners", sugerem que uma árvore natural, especialmente se for de origem local e devidamente reciclada, geralmente tem um impacto ambiental menor. No entanto, uma árvore artificial, se usada por muitos e muitos anos (a recomendação varia, mas geralmente se fala em 10 a 20 anos), pode mitigar significativamente sua pegada de carbono inicial. Mas aí tem a decomposição, a dispersão de nanopartículas de plástico no ambiente, etc...

A escolha, portanto, é pessoal e depende de nossas circunstâncias e valores. Mas a história por trás de cada opção nos convida a uma reflexão mais profunda. Neste Natal, o que nossa árvore dirá sobre os valores que queremos cultivar? Como podemos alinhar nossas tradições mais queridas com o modelo de desenvolvimento sustentável que desejamos para o futuro?

Seja qual for a sua escolha, que ela seja consciente. Desejo a todos um Natal cheio de alegria e um Ano Novo de reflexão e esperança. Boas festas!


REFERÊNCIAS

CHRISTIANSEN, Liv. A Grinch-Like View on Environmentally Unfriendly Christmas Traditions: Christmas as an Accelerator of Climate Change and Plastic Pollution. Völkerrechtsblog, 23 dez. 2021. Disponível em: https://voelkerrechtsblog.org/. DOI: 10.17176/20211223-124035-0.

COX, Anthony. What is the environmental footprint of Christmas? OECD Blog, 24 dez. 2019., Disponível em: https://www.oecd.org/en/blogs/2019/12/what-is-the-environmental-footprint-of-christmas.html?utm_source=chatgpt.com

HAQ, Gary et al. The Carbon Cost of Christmas. Stockholm: Stockholm Environment Institute, 2007. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/263969440_The_Carbon_Cost_of_Christmas?utm_source=chatgpt.com

THOMAS, Aaron. Controlling Christmas: an environmental history of natural and artificial trees. 2020. 575 f. Tese (Doutorado em História dos Estados Unidos) – Mississippi State University, Mississippi, 2020. Disponível em: https://scholarsjunction.msstate.edu/td/1181.

O texto desta postagem passou por revisão e modificações com o uso de IA. A imagem usada na postagem, feita com IA, está postada aqui, clique para acessar.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Você conhece o dicionário de História Ambiental?

Você já pensou que as secas podem nos dar pistas sobre a queda de impérios, ou o que a regeneração de florestas revela sobre pandemias medievais? Essas são as questões que a História Ambiental busca responder, rejeitando a ideia de que a experiência humana está isenta das restrições naturais ou que as consequências ecológicas dos atos passados podem ser ignoradas. Ao integrar o meio ambiente como um ator ativo nos eventos humanos, este campo ilumina de novas maneiras a história política, social e econômica.

Segundo a historiadora Carolyn Merchant, este é simultaneamente um dos campos mais antigos e mais novos da história humana, e seu principal desafio é trazer a natureza para dentro da narrativa histórica. As origens do campo, cujas raízes remontam a ideias de conservação, patrimônio e ecologia, encontram sua expressão em obras clássicas como Changes in the Land de William Cronon, que analisa as transformações ecológicas na Nova Inglaterra colonial, e Dust Bowl de Donald Worster, que explora as causas ambientais e sociais da grande seca nas planícies americanas.

Essencialmente, a História Ambiental precisa de um ato de equilíbrio interdisciplinar. Para construir suas análises, ela frequentemente pega emprestado ferramentas e metodologias de outras disciplinas, como a geografia, a arqueologia e as ciências naturais, criando uma compreensão mais rica e complexa do passado. Para navegar neste campo interdisciplinar, pesquisadores e estudantes precisam de ferramentas de referência que sejam ao mesmo tempo abrangentes e acessíveis. A Dictionary of Environmental History é uma dessas obras fundamentais.

O objetivo do dicionário é duplo, manter as entradas/termos/conceitos mais curtas o mais factuais possível, oferecendo definições e dados concisos, enquanto trata as entradas mais longas como miniensaios de pesquisa que exploram a complexidade de um tópico. Para incentivar o aprofundamento, a obra está vinculada a uma extensa bibliografia, direcionando o leitor a leituras adicionais. Uma de suas características mais úteis é o sistema de referências cruzadas. Ao longo do texto, termos que correspondem a outras entradas aparecem em negrito, permitindo que os leitores naveguem de um tópico para outros relacionados, construindo uma rede de conhecimento interconectado. O que deixa muito legal o uso do dicionário. Mas a verdadeira medida de uma ferramenta de pesquisa reside em sua aplicação prática. Para ilustrar seu valor, vamos explorar como algumas entradas-chave do dicionário podem catalisar diferentes linhas de investigação histórica. 

Como analisamos a resiliência ou o colapso de sociedades a longo prazo? O dicionário oferece arcabouços teóricos por meio de verbetes como "adaptation to environmental change" (adaptação à mudança ambiental). A entrada define o conceito como as estratégias adotadas por sociedades para reduzir sua vulnerabilidade às mudanças ambientais, sejam elas periódicas (enchentes relâmpago), cíclicas (El Niño), graduais (mudança do nível do mar) ou rápidas (terremotos). Para ilustrar a aplicação desses conceitos, a obra apresenta exemplos históricos de falhas na adaptação — como o assentamento nórdico da Groenlândia, os habitantes da Ilha de Páscoa e os Maias — e contrapõe com casos de sucesso, como o desenvolvimento da agricultura no Oriente Próximo.

Quais foram as consequências ecológicas invisíveis de grandes eventos históricos? A entrada "Black Death" (Peste Negra) revela como uma pandemia que assolou a Eurásia em meados do século XIV teve profundos impactos ambientais. O drástico declínio populacional não apenas transformou o sistema feudal devido à escassez de mão de obra, mas também permitiu a regeneração generalizada de florestas em áreas mais marginais, que foram abandonadas. Este exemplo demonstra como eventos demográficos podem desencadear respostas ecológicas em grande escala, remodelando paisagens e sistemas sociais.

Quais métodos não tradicionais podem revelar novas perspectivas sobre a história da paisagem? A entrada sobre "aerial photography/photographs" (fotografia aérea/fotografias) demonstra como ferramentas de outras disciplinas são cruciais para a História Ambiental. O uso de fotografias aéreas tornou-se uma abordagem padrão na arqueologia e na história da paisagem, permitindo estudar a mudança da vegetação, o desenvolvimento de formas de relevo como sistemas de ravinas e registrar paisagens tradicionais antes de mudanças rápidas. Um exemplo notável são as fotografias da Grã-Bretanha tiradas pela Força Aérea Real (RAF) no final da década de 1940. Quando comparadas com imagens modernas, elas servem como registros valiosos de mudanças ambientais, como a remoção de limites de campo com o surgimento do agronegócio.

Muitos problemas ambientais que parecem contemporâneos têm raízes históricas profundas, como ilustra a entrada "acid rain" (chuva ácida). O dicionário define o fenômeno como a poluição causada por dióxido de enxofre (SO2) e óxidos nitrosos que reagem na atmosfera para produzir ácido sulfúrico e nítrico. Embora os danos generalizados à vegetação na Europa nas décadas de 1970 e 1980 — um processo conhecido na Alemanha como waldsterben (morte da floresta) — tenham trazido o problema para o centro das atenções, o texto ressalta que, em uma escala mais local, o problema remonta aos primórdios da industrialização em áreas como o norte da Inglaterra.

A obra oferece estudos de caso detalhados sobre a interação complexa entre civilizações e seus ambientes, como na entrada "Anasazi". Os Anasazi são descritos como a civilização do sudoeste dos Estados Unidos que construiu os edifícios mais altos da América do Norte antes dos arranha-céus de Chicago na década de 1880. A entrada explica que uma combinação de pressão populacional e secas severas periódicas a partir de c. 1130 d.C. precipitou o estresse social. Os Anasazi não entraram em colapso total, mas se dispersaram durante dois grandes ciclos de seca, demonstrando a vulnerabilidade de uma população que vivia próxima da capacidade de suporte de seu ambiente.

Os exemplos acima ilustram como A Dictionary of Environmental History (bem, e se você chegou até aqui na leitura, baixe o dicionário clicando aqui) pode ser uma ferramenta versátil. Aqui estão algumas maneiras práticas de integrá-lo ao seu trabalho:

- Use as entradas/termos/conceitos como uma introdução a um tema. Elas fornecem o contexto essencial, as principais referências e os debates centrais, oferecendo uma base sólida para iniciar uma pesquisa mais aprofundada.

- O dicionário é ideal para esclarecer terminologias e conceitos fundamentais que podem ser ambíguos, como "adaptação", "agronegócio" ou "capacidade de suporte".

- A obra é uma fonte rica de exemplos e estudos de caso de diferentes períodos e regiões, como os Anasazi, a Ilha de Páscoa ou a Peste Negra. Esses exemplos podem enriquecer uma análise, fornecer material comparativo ou inspirar novas linhas de investigação.

- Aproveite ao máximo as referências cruzadas (termos em negrito). Elas permitem conectar eventos (Peste Negra), métodos (fotografia aérea) e lugares (Groenlândia), ajudando a construir uma compreensão mais ampla e interconectada de um assunto.

Em suma, afirmamos que a História Ambiental é um campo que nos oferece uma compreensão mais completa do passado, revelando a intrincada dança entre a ação humana e as forças da natureza. Ao examinar a adaptação de sociedades como os Anasazi, as consequências ecológicas da Peste Negra ou as origens industriais da chuva ácida, percebemos que a história não aconteceu em um vácuo, mas em um palco moldado por climas, ecossistemas e recursos naturais.

Use e abuse do A Dictionary of Environmental History, é uma ferramentas indispensável que torna esse campo fascinante mais acessível a estudantes e pesquisadores. Ele fornece um vocabulário, conceitos e exemplos necessários para desvendar as complexas narrativas ambientais do passado. Ferramentas como esta nos capacitam a, finalmente, trazer a natureza de volta para a história humana, revelando um passado mais complexo, dinâmico e relevante do que jamais imaginamos.

Texto adaptado e revisado com uso de IA. A fonte principal é o próprio dicionário. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A História Ambiental no brasão de Blumenau?


O brasão de Blumenau é mais do que um símbolo oficial, ele é um "lugar de memória" que articula a história política e a identidade local. Contudo, analisá-lo sob a perspectiva da História Ambiental o revela como um monumento a uma ideologia de desenvolvimento. Esta postagem propõe uma leitura crítica do brasão para desvendar o que seus símbolos omitem. Ao decifra-lo por esse olhar teórico metodológico podemos descobrir os tangíveis custos socioecológicos, que hoje são visíveis na própria paisagem do Vale do Itajaí, ou seja, os efeitos colaterais que essa ideologia desenvolvimentista exigiu do ambiente.

Idealizado pelo historiador Afonso d’Escragnolle Taunay, o brasão possui uma estrutura heráldica, um escudo redondo tipo português esquartelado em seis partes, encimado pela tradicional coroa mural que simboliza a autonomia municipal e sua relação com a História do Brasil. Mas a sua composição visual foca em duas narrativas centrais: a herança cultural dos colonizadores e a inserção do município no cenário político nacional. 

Os símbolos nos campos do escudo detalham essa narrativa. Estão presentes representações das províncias alemãs de Braunschweig, Prússia, Saxônia e Baviera, refletindo a origem da maioria dos imigrantes que fundaram a cidade. A inclusão das armas nacionais e de Santa Catarina posiciona Blumenau dentro da ordem político-territorial brasileira, construindo um projeto identitário que ultrapassa as fronteiras locais. Esses elementos constroem uma memória oficial que valoriza a herança cultural e política dos fundadores, celebrando suas origens e sua integração ao novo país.

Ao observar o brasão, uma pergunta emerge: onde estão os rios, as árvores e a fauna nativa que marcaram a paisagem do Vale do Itajaí? Essa omissão é profundamente significativa, se olharmos criticamente pela viés da História Ambiental. Este campo de estudo nasceu justamente de uma crítica à "leitura ‘flutuante’ da história humana", ou seja, à ideia de que a vida social pode ser compreendida de forma isolada do mundo biofisísico onde ela de fato acontece. A ausência de elementos naturais reflete um modelo de desenvolvimento que via a natureza como um pano de fundo a ser conquistado e explorado, e não como protagonista da história. Essa escolha heráldica promove uma "invisibilização ambiental", silenciando as complexas relações materiais entre a sociedade e o ambiente. Enquanto o brasão permanecia em silêncio, a paisagem do Vale do Itajaí gritava com os sons da transformação. 

Os colonizadores que chegaram à região encontraram um território originalmente coberto pela exuberante Mata Atlântica. A ocupação, no entanto, foi conduzida como por um exército de ocupação, avançando pelos vales e deixando um rastro de fumaça e madeira cortada. O protagonista dessa narrativa silenciada é o pioneiro, o colono-lenhador, presente no lado direito do Brasão. O processo de "desbravar" a mata começava com a técnica da "coivara" — o corte e a queima da vegetação para abrir clareiras para casas e roças de subsistência. Logo, a extração madeireira tornou-se a base econômica. Espécies de alto valor como a canela e a peroba foram derrubadas em escala massiva para abastecer os inúmeros "engenhos de serra" que se multiplicaram pela região, financiados por comerciantes da cidade que lucravam com a exportação. Os rios, antes artérias de vida, foram transformados em vias de transporte, seus canais alterados e suas águas sufocadas por balsas e jangadas carregadas de toras. 

A partir da década de 1940, essa pressão se intensificou com a expansão do cultivo de fumo. A nova cultura comercial exigia um tributo ecológico devastador: as estufas para secagem das folhas consumiam quantidades colossais de lenha. Estima-se que "a secagem de 50 mil pés de fumo consome em torno de 70 a 80 metros cúbicos de lenha", e para tal, "toda espécie servia de fonte de energia". O resultado, em meados do século XX, foi um "sério problema socioambiental": erosão, empobrecimento rural, redução da fertilidade dos solos e um crescente êxodo rural. Essa paisagem de profunda transformação, exploração e crise socioecológica é o que foi silenciado pelos símbolos heráldicos.

O historiador Warren Dean, com sua obra seminal A Ferro e Fogo: A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira, ofereceu uma nova maneira de entender essa história. O livro é um marco para a História Ambiental da Mata Atlântica, pois sua principal inovação foi colocar a própria floresta no centro da narrativa. Em certo sentido, Dean escreveu uma história do Brasil a partir da destruição da Mata Atlântica. Sua abordagem reconhece que a transformação do ambiente não é um mero efeito colateral do progresso, mas sim uma parte constitutiva e central da história humana no país. A história de Blumenau e do Vale do Itajaí, como detalhada anteriormente, é um poderoso microcosmo do argumento macro-histórico de Dean, demonstrando precisamente como, "a ferro e fogo", a paisagem regional foi forjada.

Na iconografia popular de Blumenau, a figura do "lenhador" é frequentemente evocada como um símbolo do pioneirismo, representando a coragem e o trabalho árduo dos primeiros colonizadores. Adotando uma perspectiva crítica, informada pela História Ambiental, este símbolo precisa ser reinterpretado. O lenhador não representa apenas a bravura e a conquista. Armado com seu machado, ele personifica o agente humano da transformação descrita: as práticas de exploração que levaram à derrubada de vastas extensões de floresta, à alteração de ecossistemas e à crise socioambiental que culminou na erosão dos solos e no empobrecimento de tantas famílias. Ele é o símbolo do preço ecológico do desenvolvimento celebrado no brasão.

O brasão de Blumenau nos convida a uma reflexão crítica sobre o custo do desenvolvimento que marcou a história da cidade e de tantas outras no Brasil. Ao expor o que foi silenciado, estamos ativamente construindo uma memória mais completa e responsável. Este exercício de análise é, em si, um ato de escrever uma das "novas histórias" que a Mata Atlântica necessita. Reinterpretar nossos símbolos à luz de uma consciência ecológica é um exercício essencial de "memória e responsabilidade ambiental". Permite-nos reconhecer a natureza não como um pano de fundo passivo, mas como protagonista histórica de nosso território. Essa nova perspectiva é crucial para enfrentarmos os desafios atuais, como deslizamentos de terra ligados à erosão histórica e a urgente necessidade de conservar e recuperar os remanescentes de floresta que ainda persistem, escrevendo assim um futuro mais justo para a sociedade e para a natureza. De qualquer forma, apresentamos aqui uma análise do brasão. Trata-se de uma leitura inicial, que pode ser ampliada e melhor aprofundada — o que, aliás, renderia um excelente ensaio. Convidamos você a expandir essa reflexão: comente aqui suas interpretações e representações sobre o brasão.

Referências

BLUMENAU (SC). Prefeitura Municipal de Blumenau. Símbolos cívicos: brasão de Blumenau. Blumenau, [s.d.]. Disponível em: https://www.blumenau.sc.gov.br/blumenau/simbolos-civicos. Acesso em: 16 dez. 2025.

PÁDUA, José Augusto; CARVALHO, Alessandra Izabel de. A construção de um país tropical: apresentação da historiografia ambiental sobre o Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 27, n. 4, p. 1311-1340, out.-dez. 2020. DOI: 10.1590/S0104-59702020000500015.

SANTOS, Gilberto Friedenreich dos; GARROTE, Martin Stabel. Apontamentos para uma história ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí Mirim – SC. Geosul, Florianópolis, v. 39, n. 90, p. 160-184, mai./ago. 2024. DOI: 10.5007/2177-5230.2024.e96695.

MATA ATLÂNTICA: novas histórias. Coordenação: Marcio Isensee e Sá. Realização: ((o))eco. [S.l.]: Instituto Serrapilheira, 2022. ISBN 978-65-991626-4-0. Publicação em 26 de julho de 2022.

Esta postagem passou por revisão e melhorias do texto com o uso de IA.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O que há de latino-americano na produção da história ambiental?

Nesta postagem vamos analisar o texto de introdução do livro A Living Past Environmental Histories of Modern Latin America, cujo título original é Finding the “Latin American” in Latin American Environmental History de John Soluri, Claudia Leal, e José Augusto Pádua. 

Compreender a América Latina exige ir além dos clichês de paisagens exuberantes e repúblicas instáveis e uma das ferramentas mais poderosas para essa compreensão aprofundada é a história ambiental, um campo que examina a intrínseca e complexa relação entre as sociedades humanas e a natureza ao longo do tempo. Para entender a pertinência dessa abordagem, basta olhar para Villa Inflamable, um bairro pobre de Buenos Aires situado às margens do poluído rio Matanza-Riachuelo. 

https://elpais.com/internacional/2018/02/14/argentina/1518638112_243046.html

Ali, a degradação socioambiental não é um problema recente, mas a sobreposição de múltiplas camadas de história. Desde o século XIX, a área abrigava matadouros e curtumes que despejavam seus resíduos no rio. No século XX, tornou-se sede de um dos maiores polos petroquímicos da Argentina. Políticas neoliberais mais recentes agravaram a pobreza, expondo ainda mais os moradores a contaminantes como chumbo e cromo. A história de Villa Inflamable — que culminou em uma ação na Suprema Corte — encapsula a interação entre legados coloniais, projetos de nação, conexões globais e desigualdade social, mostrando por que uma perspectiva histórica é indispensável.

É nesse contexto que o capítulo "Introduction. Finding the ‘Latin American’ in Latin American Environmental History", parte da obra A Living Past: Environmental Histories of Modern Latin America, se apresenta como uma leitura fundamental. Os autores lançam uma questão central que serve como fio condutor para toda a análise: o que define e torna única a história ambiental da América Latina? Procuraremos com este texto explorar a estrutura argumentativa e as respostas propostas por este importante texto. Para baixar o texto que inspira esta publicação, acesse aqui.

A história ambiental latino-americana é um campo de estudo vibrante, mas relativamente jovem. Embora já bem estabelecida nos Estados Unidos e na Europa, foi apenas no início do século XXI que a área começou a florescer na América Latina, com um aumento significativo de publicações, conferências e programas de pós-graduação. Um marco institucional decisivo foi a criação da Sociedade Latino-Americana e Caribenha de História Ambiental (SOLCHA) em 2006, que ajudou a fortalecer redes de pesquisa e a promover o diálogo entre especialistas.

No entanto, o capítulo aponta desafios persistentes. A pesquisa ainda é marcada pela fragmentação, e a circulação de conhecimento enfrenta barreiras geográficas, linguísticas, tecnológicas e de culturas acadêmicas que resultam em uma historiografia desigual. Muitos estudos se concentram em nações ou regiões específicas, tornando difícil a construção de uma visão geral. É precisamente para superar essa fragmentação que o capítulo se propõe a oferecer uma estrutura analítica unificadora, capaz de conectar estudos de caso locais a processos históricos mais amplos.

O principal argumento do capítulo é a identificação de quatro características inter-relacionadas que são cruciais para "encontrar o 'latino-americano'" na história ambiental da região. Esses quatro eixos, que se sobrepõem e se influenciam mutuamente, oferecem uma lente poderosa para interpretar as transformações socioambientais da América Latina moderna:

1. As duradouras heranças do colonialismo ibérico.
2. A formação e persistência dos Estados-nação.
3. As trocas transoceânicas.
4. A tropicalidade.

O primeiro eixo desconstrói as heranças coloniais, argumentando que o colonialismo ibérico transformou permanentemente os ecossistemas e as sociedades da região. O colapso demográfico das populações indígenas, causado pela introdução de patógenos europeus, foi uma das mudanças mais drásticas. A exploração intensiva de recursos, como o desmatamento para alimentar as fundições de prata em Potosí e na Nova Espanha, deixou cicatrizes duradouras. O colonialismo também deu origem a grandes centros urbanos, como a Cidade do México, construídos sobre ecossistemas frágeis como leitos de lagos. A introdução de gado, cavalos e porcos ibéricos alterou paisagens e modos de vida, enquanto em outras áreas, o declínio populacional indígena levou ao abandono de campos agrícolas, permitindo a expansão de florestas. Os autores ressaltam uma nuance crucial: diferentemente de projetos coloniais europeus posteriores na África e na Ásia, que tinham políticas explícitas de gestão de recursos, o colapso demográfico nas Américas foi uma consequência não intencional, destacando a contingência única do passado colonial da região.

Após as independências no século XIX, os novos Estados-nação se apropriaram da natureza, tratando-a como um "patrimônio nacional". Este segundo eixo analisa o papel central e dual do Estado na reconfiguração do meio ambiente. Os governos se esforçaram para mapear e delimitar seus territórios, nacionalizando a natureza através da demarcação de fronteiras. Formaram-se o que os autores argumentam serem, literalmente, "repúblicas da natureza" — nações cujo poder estatal e finanças foram construídos sobre a extração e exportação de commodities como o guano peruano (excremento de aves), bananas e café. No século XX, projetos de modernização impulsionados pelo Estado — grandes barragens, rodovias, industrialização — aceleraram essa transformação extrativa. Este eixo expõe uma tensão fundamental: o mesmo Estado que promovia a exploração agressiva para a construção nacional era também o agente que criava parques nacionais e departamentos florestais, assumindo um papel na conservação para definir e proteger o patrimônio da nação.

A história ambiental da América Latina é inseparável de fluxos globais que se estendem muito além do "Intercâmbio Colombiano" inicial. O terceiro eixo aprofunda essa análise, desafiando uma visão eurocêntrica e do início da era moderna ao destacar conexões transoceânicas posteriores e multidirecionais. Houve fluxos massivos de pessoas, incluindo africanos escravizados, trabalhadores contratados da China e da Índia, e imigrantes da Europa. Esses grupos trouxeram consigo suas próprias plantas, animais e práticas culturais. Os fluxos de biota também foram determinantes; a introdução de gramíneas africanas e gado do sul da Ásia, por exemplo, revolucionou a pecuária tropical. Além disso, os fluxos de doenças de commodities, que ameaçavam culturas de exportação, levaram cientistas e governos a criar centros de pesquisa dedicados à patologia vegetal e ao melhoramento genético, conectando a ciência local às redes globais de conhecimento.

O quarto eixo, a "tropicalidade", é um conceito complexo que não se refere apenas a uma característica climática, mas a uma poderosa ideologia cultural construída historicamente. Os autores mostram como essa ideia sempre foi ambivalente: os trópicos eram vistos tanto como um lugar de exuberância e riqueza natural quanto de perigo, doença e degeneração racial. Essa ideologia dualista serviu para justificar intervenções externas, como as campanhas de saneamento que viabilizaram a construção do Canal do Panamá. A percepção sobre as florestas tropicais também mudou drasticamente. Até meados do século XX, elas eram vistas como "selvas" (jungles) ameaçadoras, um obstáculo à civilização. A partir da década de 1970, essa imagem foi substituída pela de "florestas tropicais" (rainforests), ecossistemas frágeis e megadiversos, agora ameaçados pela civilização.

Ao analisar o estado da arte da pesquisa, os autores observam que a "primeira onda" de estudos em história ambiental latino-americana teve uma forte preocupação com o destino das florestas e o desmatamento. Embora fundamental, esse foco deixou outros temas cruciais sub-representados na historiografia. Áreas como a mineração e o petróleo, as pastagens (pampas, cerrados, llanos), os desertos e, de forma mais ampla, o consumo interno de alimentos e energia, ainda carecem de mais atenção. A aplicação dos quatro eixos a essas lacunas pode gerar novas e importantes percepções. Um estudo sobre o Deserto do Atacama, por exemplo, poderia iluminar o papel do Estado-nação (Eixo 2) na gestão de recursos hídricos escassos e as complexas ideias culturais sobre terras áridas que desafiam a narrativa dominante da "tropicalidade" (Eixo 4).

A força da contribuição do capítulo introdutório de A Living Past reside em sua capacidade de oferecer um "mapa conceitual" e uma proposta metodológica para um campo acadêmico em expansão, mas ainda fragmentado. Ao articular os quatro eixos — heranças coloniais, Estado-nação, conexões transoceânicas e tropicalidade —, os autores fornecem uma estrutura robusta para pensar a história ambiental da região de forma integrada e comparativa.

A importância deste texto pode ser destacada para diferentes públicos:

• Para estudantes: Funciona como uma excelente porta de entrada, apresentando de forma clara e sistemática os principais conceitos, debates e temas da área.
• Para professores: Oferece uma estrutura didática e organizada para lecionar sobre a história ambiental da América Latina, permitindo conectar diferentes períodos e regiões.
• Para pesquisadores: Serve como uma provocação para novas investigações, incentivando a conexão entre estudos de caso locais e os grandes processos históricos que definem a região, além de apontar lacunas importantes na pesquisa.

Em suma, o capítulo demonstra de forma contundente como a história ambiental é uma ferramenta indispensável para uma compreensão profunda dos desafios contemporâneos e das formações sociais, políticas e econômicas da América Latina moderna.

Sobre os autores do texto:


John Soluri é professor de História e Diretor de Global Studies no Departamento de História da Carnegie Mellon University (EUA), onde leciona sobre mudanças sociais e ambientais na América Latina. Sua pesquisa e ensino exploram, especialmente, as histórias transnacionais da agricultura, alimentação, energia e da mercantilização de não-humanos na região. É autor de Banana Cultures: Agriculture, Consumption and Environmental Change in Honduras and the United States, obra premiada com o George Perkins Marsh Award. Seus projetos recentes envolvem história ambiental da alimentação, produção de café e extração de petróleo na América Latina.


Claudia Leal é professora titular no Departamento de História e Geografia da Universidad de los Andes (Bogotá, Colômbia). É doutora em Geografia pela University of California, Berkeley, com formação em economia. Sua pesquisa se situa na interseção entre história e geografia, com foco na história ambiental latino-americana, conservação da natureza e transformação do território após a escravidão. Publicou livros como Paisajes de libertad e coeditou coletâneas importantes, incluindo Un pasado vivo: Dos siglos de historia ambiental latinoamericana, versão em espanhol de A Living Past. Leal também participou como fundadora e co-presidente da Sociedade Latino-Americana e Caribeña de Historia Ambiental e foi pesquisadora em instituições internacionais.


José Augusto Pádua é professor associado de História do Brasil no Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e pós-doutorado pela University of Oxford. É um dos principais especialistas brasileiros em história ambiental, tendo contribuído com estudos sobre políticas ambientais, biomas brasileiros e história territorial. Foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS) e atua no Laboratório de História e Natureza da UFRJ. Sua obra inclui Um sopro de destruição, que examina as bases ambientais e políticas do Brasil escravista, e a coorganização de A Living Past: Environmental Histories of Modern Latin America. Pádua também participa de conselhos editoriais e colabora internacionalmente em conferências e projetos de pesquisa

Referência: SOLURI, John; LEAL, Claudia; PÁDUA, José Augusto. Introduction. Finding the “Latin American” in Latin American Environmental History. In: LEAL, Claudia; SOLURI, John; PÁDUA, José Augusto (org.). A Living Past: Environmental Histories of Modern Latin America. New York: Berghahn Books, 2018.

OBS: Este texto passou por revisão e alterações a partir de uso de ferramenta de IA generativa.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Cinco lições surpreendentes que a História Ambiental revela sobre o Mundo

David Arnold
Quando pensamos em história, geralmente imaginamos um palco onde os grandes dramas da humanidade se desenrolam: batalhas, revoluções, a ascensão e queda de impérios. Nesse cenário, a natureza — o clima, as florestas, os rios e as doenças — costuma ser tratada como um pano de fundo estático, um elemento passivo que apenas testemunha a ação humana. Mas e se a natureza não for apenas o cenário, e sim um dos protagonistas mais poderosos e secretos da história? É essa a ideia central explorada pelo historiador David Arnold na obra A natureza como problema histórico: o meio ambiente, a cultura e a expansão europeia

Baixe aqui o livro

David Arnold argumenta que a "natureza" não é apenas uma realidade física, mas um "problema histórico". Ao longo dos séculos, o conceito de natureza foi moldado, debatido e, crucialmente, utilizado como uma ferramenta para justificar grandes eventos históricos. Ideias sobre o clima, a geografia e a biologia foram usadas para legitimar desde a superioridade de civilizações até a subjugação de povos inteiros. Este artigo demonstrará que, repetidamente, a "natureza" foi invocada não como uma verdade objetiva, mas como a justificação final para o exercício do poder.

Vamos aqui  mergulhar nessa fascinante abordagem para revelar cinco das lições mais impactantes e surpreendentes que a história ambiental nos ensina. Prepare-se para descobrir como o destino de impérios foi selado não apenas por exércitos, mas por micróbios, e como ideias aparentemente científicas sobre o meio ambiente serviram para construir o mundo como o conhecemos.

A primeira lição, o clima como arma política e a antiga ideia de que a geografia define o destino
 
A ideia de que a geografia molda o destino é uma das mais antigas e persistentes da história humana. Mas a história ambiental revela que essa não era uma observação neutra; era uma arma política. Por milênios, prevaleceu o que os historiadores chamam de "paradigma ambientalista": a crença de que o ambiente, especialmente o clima e a topografia, dita de forma inescapável as características físicas, morais e políticas de uma sociedade.

O tratado grego Ares, águas, lugares, atribuído a Hipócrates no século V a.C., articulou pela primeira vez de forma sistemática essa ideia. O texto argumentava que climas estáveis e terras férteis produziam povos "dóceis e pouco passionais", enquanto climas variáveis e terrenos acidentados geravam povos valentes e inteligentes. Essa lógica foi usada para criar um contraste fundamental entre uma Europa "superior", moldada por desafios ambientais, e uma Ásia "fraca" e submissa, amolecida por um clima ameno e condições fáceis.

Essa forma de pensar ganhou força renovada no século XVIII com o filósofo Montesquieu. Em sua influente obra O Espírito das Leis (1748), ele usou argumentos climáticos para justificar sistemas políticos. Para ele, o despotismo não era uma falha moral ou política na Ásia, mas uma consequência natural de sua geografia e clima extremos, que exigiam um poder absoluto para manter a ordem. Em contraste, o clima moderado e o terreno fragmentado da Europa eram, segundo ele, o berço natural da liberdade.

O poder, por conseguinte, deve ser sempre despótico na Ásia, pois se a servidão não fosse extrema, o continente sofreria uma divisão que a geografia da região proíbe. Essa ideia, que se apresentava como uma observação científica, serviu como uma poderosa ferramenta ideológica. Ela permitiu criar uma "outridade", uma diferença fundamental e "natural" entre o Ocidente e o resto do mundo, e justificar hierarquias de poder muito antes do auge do imperialismo moderno. Esta arma ideológica, que transformava o clima em destino, seria em breve acompanhada por uma arma biológica ainda mais devastadora.

A segunda lição, a conquista biológica: como germes, ervas daninhas venceram impérios

A história que nos contaram sobre a conquista da América está errada. Não foram o aço e a pólvora os verdadeiros conquistadores, mas sim aliados invisíveis e silenciosos que os europeus trouxeram sem saber. A história ambiental revela que os passageiros clandestinos que vieram nos navios, como germes, plantas e animais, foram mais letais e decisivos que qualquer exército.

O historiador Alfred W. Crosby chamou esse processo de "Imperialismo Ecológico". Após séculos de isolamento, o encontro entre o Velho Mundo (Europa, Ásia, África) e o Novo Mundo (as Américas) desencadeou o "Intercâmbio Colombiano" — uma transferência massiva de espécies. O problema é que essa troca foi devastadoramente desigual. Enquanto as Américas deram ao mundo batata e milho, a Europa exportou uma "biota" invasora — uma verdadeira "valija" ecológica, nas palavras de Crosby, e que aniquilou as populações nativas.

Germes como a varíola e o sarampo, contra os quais os povos ameríndios não tinham qualquer imunidade, espalharam-se como fogo, causando pandemias que mataram milhões. Animais como porcos e gado, soltos no novo ambiente, multiplicaram-se descontroladamente, destruindo plantações nativas. O resultado foi um colapso demográfico tão catastrófico que o historiador David E. Stannard o chamou de "o pior holocausto humano da história". Embora a vantagem biológica tenha sido inegavelmente decisiva, ela atuou em conjunto com sistemas brutais de exploração, criando uma "tempestade perfeita" de destruição, em vez de um simples acidente biológico.

O primeiro passo para entender o homem consiste em considerá-lo uma entidade biológica que tem existido sobre este planeta, afetando os organismos que compartilham com ele o ambiente e, ao mesmo tempo, sendo afetado por estes, durante milhares de anos. Essa perspectiva biocêntrica muda tudo. Ela nos mostra que a aparente "facilidade" da conquista não se deveu apenas à superioridade militar europeia, mas a uma vantagem biológica avassaladora. Os "aliados biológicos" dos europeus foram, em muitos casos, mais decisivos do que suas estratégias e armas, revelando como a história pode ser profundamente moldada por forças invisíveis da natureza.

A terceira lição trata do legado sombrio da Peste Negra e sua conexão com o tráfico de escravos

A Peste Negra, que varreu a Eurásia entre 1346 e 1351, é lembrada como a "maior crise ambiental" da história europeia. A epidemia matou cerca de um terço da população do continente, levando ao colapso do sistema feudal e a profundas transformações sociais. Contudo, uma de suas consequências mais impactantes e menos conhecidas se estende para muito além da Europa, conectando a catástrofe a uma das maiores tragédias da história moderna: o tráfico transatlântico de escravos.

Antes da Peste Negra, a Europa complementava sua força de trabalho com escravos, muitos dos quais vinham da região do Mar Negro. A pandemia, no entanto, desencadeou uma cadeia de eventos com um efeito borboleta assustador. Primeiro, a doença dizimou a população europeia, criando uma demanda nova e desesperada por mão de obra. Segundo, a mesma praga interrompeu a rota tradicional de escravos do Mar Negro, um bloqueio que foi consolidado mais tarde pelo avanço do Império Otomano.

Com a antiga fonte de escravos bloqueada e a necessidade de trabalhadores em alta, comerciantes portugueses e italianos voltaram sua atenção para uma nova fonte: a costa da África Ocidental. A Peste Negra, ao criar um déficit de mão de obra sem precedentes e fechar as rotas antigas, deu assim um impulso crucial para o início do tráfico de escravos africanos, ligando duas catástrofes históricas de forma chocante. Um "acidente" biológico ocorrido na Eurásia — a propagação de um bacilo por meio de ratos e pulgas — reconfigurou indiretamente o mapa demográfico e moral da África e das Américas séculos depois.

A quarta lição trata do mito da natureza intocada

A narrativa da expansão dos Estados Unidos é dominada pela "tese da fronteira", popularizada pelo historiador Frederick Jackson Turner. Essa visão argumentava que a experiência de conquistar uma "terra livre", um continente "selvagem" e "intocado", foi o que forjou a democracia e o individualismo americanos, distinguindo a nação de suas origens europeias. A história ambiental, no entanto, desmonta completamente esse mito fundador.

Longe de ser uma terra virgem, a América pré-colombiana era um continente intensamente manejado por seus povos nativos por milênios. Os indígenas eram agentes ecológicos ativos que moldavam a paisagem de forma profunda e sofisticada. Eles usavam o fogo de maneira controlada para limpar áreas de floresta, o que promovia o crescimento de plantas úteis e atraía caça. Praticavam formas complexas de agricultura que alteravam a composição do solo e da vegetação em vastas regiões.

O que os colonizadores europeus perceberam como uma natureza "selvagem" era, na verdade, um artefato do colapso demográfico que eles mesmos haviam causado. A paisagem parecia intocada porque os sistemas indígenas de manejo haviam entrado em colapso com a dizimação de suas populações. O historiador Francis Jennings, citado por William Cronon, capturou essa realidade com uma frase poderosa: a terra encontrada pelos europeus era menos "virgem" do que "viúva".
Essa revelação nos força a repensar a narrativa de "civilização versus selvageria". O mito da natureza intocada não foi apenas um erro, mas uma ilusão autojustificativa criada pelo próprio processo de colonização. A expansão europeia não foi a criação de uma nova ordem a partir do nada, mas a destruição e a substituição de uma complexa ordem ecológica e cultural que já existia.

A  quinta lição é sobre os Trópicos: entre o paraíso e o inferno

A mesma lógica que permitiu aos gregos e a Montesquieu usar o clima para definir a Europa em oposição à Ásia foi reimaginada pelos exploradores europeus para inventar uma nova geografia de poder: a "tropicalidade". O conceito de "trópicos" não é um simples fato geográfico, mas uma poderosa construção cultural europeia, marcada por uma profunda ambivalência.

Por um lado, desde as primeiras viagens de exploração, os trópicos foram imaginados como o paraíso na Terra. Cristóvão Colombo descreveu o Caribe como um possível Jardim do Éden, e as expedições do Capitão Cook ao Taiti no século XVIII reforçaram a imagem de um lugar de abundância, inocência e liberdade. Essa visão edênica atraiu naturalistas e artistas, que viam nos trópicos um refúgio da fria e reprimida Europa.

Por outro lado, desenvolveu-se uma visão radicalmente oposta: os trópicos como a "zona tórrida", um inferno na Terra. A medicina colonial retratava a região como um foco de doenças mortais e degeneração. Acreditava-se que o calor e a umidade não apenas enfraqueciam o corpo europeu, mas também corrompiam a moral, levando à indolência e à depravação. Essa imagem negativa servia a um propósito político claro: justificava a crença de que a "civilização" era impossível nos trópicos sem a intervenção europeia e que a escravidão era um sistema "natural" e necessário para a produtividade da região.

Essa "invenção" dos trópicos foi uma forma de definir, categorizar e, finalmente, controlar vastas regiões do mundo. Ela demonstra como a percepção que temos do meio ambiente nunca é neutra; é sempre uma lente através da qual projetamos nossos medos, desejos e, acima de tudo, nossas relações de poder.

Podemos concluir que estas 5 lições de história ambiental revelam uma verdade desconcertante: nossa relação com a natureza é muito mais complexa e politicamente carregada do que imaginamos. Vimos como o clima foi usado para justificar impérios, como micróbios invisíveis foram mais decisivos que exércitos, como uma pandemia em um continente selou o destino de outro, e como nossa própria percepção do que é "natural" ou "selvagem" foi construída para servir a interesses de poder. A natureza nunca foi apenas um pano de fundo; ela sempre esteve no centro da história, como causa, consequência e justificação.

A lição mais profunda da história ambiental é esta: a forma como nomeamos e definimos o mundo natural é um ato de imenso poder e responsabilidade. Entender como essa ferramenta foi usada no passado é o único caminho para garantir que, no futuro, ela seja usada para a justiça, e não para a exclusão.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Suzana Beatriz Peters, conquista o 1º lugar no mestrado em Desenvolvimento Regional

O Grupo de Pesquisa tem a alegria de celebrar uma conquista significativa de uma de suas ex-bolsistas: Suzana Beatriz Peters, egressa do curso de História da FURB, foi classificada em primeiro lugar no processo seletivo para o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional - FURB. A futura mestranda desenvolverá sua pesquisa sob orientação do professor Gilberto, fortalecendo ainda mais a produção científica vinculada ao nosso grupo. Suzana teve uma trajetória marcante durante sua graduação. Participou ativamente de iniciações científicas, contribuiu para projetos relevantes e defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso dentro da nossa linha de pesquisa. Sua dedicação, curiosidade acadêmica e compromisso com o estudo do desenvolvimento regional foram diferenciais decisivos para essa nova etapa.

Agora, ingressando na pós-graduação, Suzana dá continuidade ao seu percurso acadêmico dentro do grupo, reafirmando a importância da formação científica desde a graduação e a força da pesquisa como instrumento de transformação social.

Parabenizamos Suzana pela conquista e desejamos muito sucesso em sua caminhada no mestrado. Que esta nova fase seja repleta de aprendizados, descobertas e realizações!

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Participação do GPHAVI na 19ª Mostra Integrada de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura (MIPE), realizada na FURB em 2025.

O Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí marcou presença na 19ª Mostra Integrada de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura (MIPE), realizada na FURB. O evento destacou a diversidade de temas do grupo, que apresentou resultados de duas Iniciações Científicas (IC) e de estudos avançados sobre a biodiversidade regional.

O estudante de Arquitetura e Urbanismo da FURB, Felipe de França Rodrigues, sob orientação do Dr. Gilberto Friedenreich dos Santos, apresentou o trabalho "História ambiental da agropecuária no Vale do Itajaí (SC) nos séculos XVIII e XIX".

Da esquerda para direita: Gilberto, Felipe, Martin

A pesquisa é fundamental para entender o desenvolvimento regional: O estudo aborda o período que se inicia em 1750, com o povoamento na Foz do Itajaí, e ganha força com a Colônia Blumenau (1850).  A introdução de espécies exóticas pelos colonos, visando o desenvolvimento agropecuário, causou a substituição de extensas áreas de Mata Atlântica. O trabalho buscou mensurar os impactos no ecossistema e as mudanças consequentes na paisagem, biodiversidade, uso do solo e qualidade da água. O estudo é de caráter histórico-descritivo e qualitativo, utilizando fontes como jornais, cartas de imigrantes e relatórios coloniais.

O grupo também investiu na formação da base, com a Iniciação Científica PIBIC/CNPq voltada ao Ensino Médio.

Da esquerda para direita: Martin, Gabriell, Gilberto e Letycia

Os estudantes Letycia Caroline de Souza e Andersson Gonçalves, orientados pelo Dr. Martin Stabel Garrote, apresentaram o tema "A divulgação científica de História Ambiental nas redes sociais: investigando a produção dos grupos de pesquisa do Sul e Sudeste".  A História Ambiental, por examinar a interação humana com o meio ambiente ao longo do tempo, tem um papel chave na agenda ecológica atual. A pesquisa é exploratória e buscou obter conhecimento prévio sobre como grupos de pesquisa de IES das regiões Sul e Sudeste utilizam as redes sociais para divulgar conteúdo. Com ela foi possível compreender a natureza, o formato e o alcance dessa divulgação, fornecendo subsídios para futuras pesquisas aprofundadas sobre o engajamento público.

Da esquerda para direita: Carlos e Heloisa

Os pesquisadores Carlos E. Zimmermann e Vanessa Dambrowski, membros do grupo, também levaram para a MIPE resultados de estudos que expandem as fronteiras da História Ambiental para a Ecologia e Zoologia local. O pesquisador Carlos E. Zimmermann esteve envolvido em três importantes levantamentos sobre avifauna em Santa Catarina, demonstrando a interdisciplinaridade nas pesquisas.